Psicose puerperal: quando a realidade pode se romper no pós-parto.
Atualizado: 17 de ago.
O caso de Lindsay Clancy, acusada de três crimes de homicídio em primeiro grau pelas mortes dos três filhos — Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de 8 meses — trouxe novamente à discussão um quadro psiquiátrico grave e pouco conhecido: a psicose puerperal.
Segundo relatos apresentados no processo, o marido, Patrick, declarou ao tribunal que, cerca de uma semana após os crimes, Lindsay teria dito que ouvia “a voz de um homem” ordenando que ela matasse as crianças.

Também foram apresentados registros escritos por Lindsay, nos quais ela relatava privação de sono, dificuldades com a amamentação e uma intensa sensação de confusão mental. Em um dos registros, escreveu sobre estar desesperada por uma “pausa mental” diante da necessidade de cuidar de todos.
É importante destacar que os elementos apresentados sobre esse caso fazem parte de relatos e informações discutidas no processo judicial e não devem ser interpretados, por si só, como confirmação de um diagnóstico de psicose puerperal. Um caso criminal específico também não pode ser utilizado, isoladamente, para estabelecer uma relação causal entre psicose puerperal e violência.
O que é psicose puerperal?
A psicose puerperal é uma condição psiquiátrica rara e grave, que pode surgir após o parto, frequentemente nas primeiras semanas.
A mulher pode apresentar sintomas como:
alucinações;
delírios;
confusão mental intensa;
desorganização do pensamento e do comportamento;
alterações importantes do humor;
agitação;
dificuldade significativa para distinguir o que é real do que não é.
Em alguns casos, a pessoa pode ouvir vozes, acreditar em situações que não correspondem à realidade ou apresentar mudanças importantes e abruptas em seu comportamento.
Por isso, a psicose puerperal é uma emergência psiquiátrica e necessita de avaliação e tratamento imediatos.
A psicose puerperal não é, por si só, um diagnóstico que possa ser identificado apenas pela presença de tristeza, ansiedade ou cansaço. Trata-se de um quadro específico, caracterizado principalmente pela alteração importante do contato com a realidade.
Psicose puerperal e depressão pós-parto são a mesma coisa?
Embora ambas possam ocorrer no período após o nascimento do bebê, são condições diferentes.
Na depressão pós-parto, podem estar presentes tristeza persistente, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa, desesperança, alterações do sono e do apetite, fadiga e dificuldade de concentração.
Na psicose puerperal, podem surgir delírios, alucinações, desorganização e uma ruptura importante com a percepção da realidade.
Em algumas situações, sintomas psicóticos também podem aparecer associados a episódios de humor graves. Por isso, uma avaliação profissional cuidadosa é fundamental para compreender o quadro apresentado por cada mulher.
Quem pode apresentar maior vulnerabilidade?
A psicose puerperal pode estar associada a diferentes fatores de vulnerabilidade. Entre eles, destaca-se a presença de transtorno afetivo bipolar e histórico pessoal ou familiar de psicose puerperal ou de determinados transtornos psiquiátricos.
Isso não significa que toda mulher com esses fatores desenvolverá psicose puerperal. Da mesma forma, a ausência de histórico psiquiátrico não elimina completamente a possibilidade de ocorrência do quadro.
A avaliação individual é fundamental, especialmente quando surgem alterações importantes no comportamento, no pensamento ou na percepção da realidade.
A privação de sono pode causar psicose puerperal?
A privação de sono é frequente no pós-parto e pode contribuir para o aumento da vulnerabilidade e do sofrimento psíquico.
No entanto, estar privada de sono não significa, por si só, que uma mulher desenvolverá psicose puerperal.
O período após o nascimento do bebê envolve mudanças físicas, hormonais, emocionais e sociais importantes. Quando a privação de sono se associa a outros fatores de vulnerabilidade, pode contribuir para o agravamento de determinados quadros psiquiátricos.
Por isso, alterações importantes no sono, especialmente quando acompanhadas de mudanças abruptas no comportamento, humor, pensamento ou percepção da realidade, merecem atenção.
Quais são os sinais de alerta?
Alguns sinais exigem atenção imediata, especialmente quando surgem de forma abrupta ou intensa:
ouvir vozes ou perceber coisas que outras pessoas não percebem;
apresentar crenças ou ideias claramente desconectadas da realidade;
demonstrar confusão mental intensa;
apresentar comportamento muito desorganizado ou incomum;
apresentar agitação ou alterações abruptas e intensas do humor;
apresentar redução importante da necessidade de dormir;
demonstrar dificuldade significativa para distinguir o que é real do que não é.
Diante desses sinais, não devemos esperar que passe sozinho.
É necessário buscar atendimento psiquiátrico imediatamente.
A psicose puerperal pode representar risco para a própria mulher e, em determinadas situações, para outras pessoas. Por isso, a avaliação e a intervenção precoces são fundamentais.
Qual é o papel do psicólogo?
O psicólogo pode desempenhar um papel importante na identificação precoce de alterações emocionais e comportamentais no puerpério, na avaliação do sofrimento psíquico e no acompanhamento da mulher e de sua família.
No contexto da psicose puerperal, entretanto, é fundamental compreender que o acompanhamento psicológico não substitui a avaliação psiquiátrica.
Diante de sinais de psicose, o encaminhamento para avaliação médica deve ser imediato. Pode ser necessário tratamento medicamentoso e, em determinadas situações, internação hospitalar.
O psicólogo também pode contribuir durante e após a crise, oferecendo:
acolhimento e escuta qualificada;
psicoeducação;
suporte à mulher e à família;
acompanhamento das repercussões emocionais da experiência;
auxílio na reconstrução da rotina e das relações;
acompanhamento psicológico após a estabilização do quadro.
O trabalho em conjunto entre psicologia, psiquiatria, família e outros profissionais de saúde pode ser fundamental para a recuperação e para a continuidade do cuidado.
Psicose puerperal não deve ser confundida com violência materna
Casos extremos como o de Lindsay Clancy podem provocar medo e contribuir para a associação entre doença mental no pós-parto e violência.
Essa associação, porém, precisa ser tratada com muito cuidado.
A maioria das mulheres que apresenta depressão, ansiedade ou outros sofrimentos psíquicos no pós-parto não apresenta comportamento violento.
A psicose puerperal é rara. Quando ocorre, entretanto, pode envolver uma alteração grave da percepção da realidade e, por isso, exige intervenção imediata.
Falar sobre esse quadro não deve servir para estigmatizar mães que enfrentam dificuldades no puerpério, mas para ampliar o conhecimento sobre os sinais que precisam ser reconhecidos e tratados.
Cuidar da saúde mental materna também é cuidar do bebê
O pós-parto é um período de profundas transformações e nem sempre a maternidade acontece da maneira idealizada.
Tristeza, ansiedade, exaustão e dificuldades de adaptação merecem acolhimento e atenção. Quando os sintomas são intensos, persistentes ou interferem significativamente na vida da mulher, é importante buscar ajuda.
E quando surgem sinais de psicose, não é momento de esperar, observar em casa ou tentar resolver apenas com apoio emocional.
É uma situação que exige avaliação psiquiátrica imediata.
Cuidar da saúde mental materna também é uma forma de cuidar do bebê, da família e da própria mulher.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação psicológica, psiquiátrica ou médica.
Raquel Boratti dos Santos Marchiori, psicóloga clínica e especializada em Psicologia Perinatal, com atuação voltada à saúde da mulher e às questões emocionais relacionadas à gestação, ao parto e ao puerpério.
Se você sente que precisa de apoio nesse período, conheça meu trabalho em Psicologia Perinatal e saiba como funciona o acompanhamento psicológico.


Comentários